Esse que vem aí é o mesmo Malazarte que você conhece desde os seus tempos de criança. Porque é arteiro é que o chamaram de Malas Artes. Você deve se acostumar a seu jeito arrevesado de falar. É que ele vem furtivo. Fala como se escondendo atrás das palavras. Surge esse logo discurso sem idade em que o novo e o velho, o nobre e o chulo se misturam. É o seu jeito malandro de entrar em todos os ambientes sem pertencer a ambiente algum. Sendo um condenado à morte, nem à vida ele pertence de todo. Sempre ameaçado e sempre fugindo, ele se move na linha traçada entre a vida e a morte. Se você não se espantar do seu jeito estranho de ser e de dizer, você acaba se familiarizando com ele. Pode até se entusiasmar com suas aventuras, aventuras que ele raramente elege, aventuras que lhe vão acontecendo nas evoluções imprevistas da vida. Não será espantoso se, ao virar as páginas, você perceber que, apesar de tudo, nem tudo está perdido. Sempre há esperança quando a inteligência triunfa sobre os golpes da desgraça. Com o Ulisses já foi assim. Desejamos ao Malazarte a mesma sorte. Nem tudo é inteligência. Há também a arte, ou a artimanha, que não deixa de ser uma forma de arte. Arte não é só a que merece destaque nos tratados, arte é também a que se derrama pela vida. Enfim, inteligência e arte tem a mesma origem e mesmo destino. Malazarte não é um exemplo de virtude. Herói nenhum o é. Ele fere e sai ferido. Não é este destino do homem?