Donaldo Schüler veio se preparando aos poucos para uma análise daquele que tem sido o mais comentado escritor da literatura brasileira: Machado de Assis. Nenhum grande crítico brasileiro contornou Machado de Assis. Todos sentiram-se na obrigação de enfrentá-lo, pois ele possui tamanha grandeza que mesmo eventuais equívocos de interpretação são sustentados pelo valor de sua obra. Tempos a fora tem surgido escritores e críticos que consideram Machado de Assis ultrapassado, mas isso depõe apenas contra os que assim pensam. O tempo se encarrega de deixar isto claro. A primeira tentativa de compreensão dos problemas da ficção machadiana de Donaldo Schüler leva o título de 'Plenitude Perdida (Formas de Narrativa - II)'. Faz uma análise das sequências narrativas no romance 'Dom Casmurro'. Pois Donaldo Schüler possui, entre tantos outros bons analistas da obra machadiana, o instrumental adequado para uma interpretação exaustiva das ideias e dos valores que percorrem sua obra. Machado de Assis, sendo um clássico, apresenta uma visão universal da paisagem humana. E Donaldo Schüler consegue coordenar e entender em profundidade os vários andaimes da estrutura, os níveis e as referências que o seu mundo ficcional deixa entrever. Conhecendo com profundidade a cultura grega, seus poetas, dramaturgos e filósofos, não encontra dificuldade em desvendar o mundo de referências clássicas que rastreia todo o romance e o conto machadiano, desde a sua fase romântica. O que dá uma dimensão maior a este ensaio de Donaldo Schüler é o fato de ele conseguir, com uma linguagem despojada e objetiva, acompanhar a aventura ficcional de Machado de Assis sem encharcá-la de teorias que não lhe dizem respeito. Consegue trazer à tona o que está debaixo do edifício de aparências e não submerge em interpretações apressadas. Acrescente-se a isso outro detalhe importante: Donaldo Schüler opera com categorias filosóficas e com processos teóricos sem chamar a tenção para eles, reconstruindo para qualquer leitor o que realmente interessa: o mundo de Machado de Assis. Poucas vezes se lerá um ensaio com tanto prazer. Talvez nisto o mérito maior de 'A Prosa Fraturada', que traz Machado de Assis, de novo, para o nosso convívio.
– Carlos Jorge Appel –