Já Platão em 'A República' percebera o fato, óbvio, aliás: o poeta – no sentido de criador – é incômodo para o legislador, pois sua atividade é, por natureza, imprevisível e inorganizável. Apesar disto, o racionalismo decadente europeu/ocidental, papagaiado mal e porcamente pelos subliteratos das periferia colonizadas, há muito insiste em buscar fundamentação para uma suposta ciência da arte, em particular para uma assim dita ciência da literatura. Besteira pura.
No máximo, as chamadas obras de arte podem ser submetidas a um processo, sempre altamente discutível, de catalogação e/ou dissecação a posteriori, em termos de história.
O acima dito é comprovado a todo e qualquer momento. Veja-se 'A Mulher afortunada', esta ótima novela (ou romance, se quiserem) [...] inesperadamente nos surpreende com uma obra de ficção de boa qualidade, Impossível que alguém pudesse prever isso.
De minha parte, não interessado aqui em catalogar ou dissecar, só só quero dizer que gostei de 'A Mulher afortunada'. é o melhor elogio que se pode fazer a um ficcionista. Mas gostei particularmente do capítulo XIV, um dos mais belos textos da ficção brasileira contemporânea. Extraordinariamente belo, poeticamente extraordinário.
– José Hildebrando Dacanal –