Temos o propósito de observar certas transformações por que passa a narrativa ocidental em momentos decisivos, tomando como critério o modelo carência/plenitude e suas possíveis variações, Como hipótese de trabalho, estabelecemos as seguintes: (1) carência/plenitude. (2) plenitude/carência. (3) carência/carência.
Pretendemos demonstrar que a 'Ilíada' de Homero realiza o modelo carência/plenitude. Sob este ponto de vista, a epopeia homérica se avizinha do conto popular. [...] A 'Ilíada' surge num mundo em que a ordem pode ser temporariamente perturbada, mas o próprio universo (o ficcional e o racional) dispõe de mecanismos que lhe restituem a ordem. Na concepção grega de mundo, a ordem triunfa sobre a desordem. Isto ocorre na epopeia, na tragédia e na filosofia. O mundo grego se define pelo modelo carência/plenitude; nele, carência e a perturbação passageira da ordem, e plenitude é o restabelecimento da ordem. Em toda plenitude pode operar-se a carência, como toda carência tende à plenitude num ciclismo contínuo.